sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Backstreet Benders

Sou fã de M. Night Shyamalan.

O cara dirigiu um dos poucos filmes que me aterrorizou de verdade (O Sexto Sentido), e realizou dois que estão entre meus favoritos: Corpo Fechado e Sinais.

Corpo Fechado, com seus trabalhos de câmera, seus planos-sequência, suas cenas cuidadosamente arquitetadas conseguiam deixar qualquer fã de cinema maluco (a brincadeira de reflexos logo no começo quando se revela um terrível fato sobre o bebê Elijah é prova do talento de Shyamalan).
Sinais com seu absurdo poder de sugestão, conseguiu deixar todo mundo com medo de alienígenas sem quase nem mostrar alienígena algum em cena. Eram sombras se movendo, ruídos, tudo isso comprovando o trabalho de um diretor brilhante.
A Vila, apesar de se tratar de um trabalho menos brilhante, se mostrava suficientemente interessante em suas idéias e se mantinha um bom filme. Embora ali começasse a aparecer os primeiros sinais da presunção de Shyamalan na sua maneira excessivamente lenta de dirigir certas cenas.

Tudo veio abaixo no filme seguinte.

"A Dama na Água", conto de fadas criado pelo diretor foi um marco na carreira de Shyamalan. Mas não se trata de algo positivo. Contando com uma história boba até para a criançada, cenas entendiantes pra cacete, e até mesmo um assassinato de um crítico de cinema no filme, realizado de maneira totalmente infantil, para servir de resposta aos críticos mais ferrenhos do diretor na época, o filme foi uma falha.
FALHOU MESMO. Total.

Mas começaram a sair os trailers de "Fim dos Tempos", e começou a empolgação de novo. Seria uma volta de Shyamalan ao gênero suspense, dessa vez com uma censura para maiores de 18 anos (que aliás foi um fato que as propagandas do filme muito usaram).
Tudo isso para todos nós nos decepcionarmos terrívelmente ao perceber que Fim dos Tempos é a maior piada cinematográfica lançada nos últimos anos. Com uma história beirando o ridículo ao mostrar uma "revolta da mãe natureza", lançando gases tóxicos na humanidade, fazendo com que todo mundo cometa suicídio.
Me lembro da minha vergonha quando levei uma amiga para assistir comigo. Nem sabia aonde esconder a cara, a medida que o filme ia ficando cada vez mais e mais ridículo (alguém lembra da cena que eles tentam correr mais rápido que o vento?)

Eu fiquei puto com estes filmes. Critiquei até o fim.
Mas ainda era fã de Shyamalan. Afinal, ele dirigiu Corpo Fechado e Sinais.
E um ser humano capaz de dirigir aquelas obras, merece para sempre respeito da população mundial.

E agora Shyamalan resolve adaptar o altamente bacana e memorável desenho da Nickelodeon, chamado "Avatar: A Lenda de Aang" ou "Avatar: O Último dobrador de ar". As vezes o dublador mudava o título. Enfim.
(Cuidado para não confundir com a galera azul do (ótimo) filme de James Cameron.)



O filme, como o desenho, mostra um mundo divido em quatro nações: Fogo, Água, Terra e Ar.
Em cada uma dessas nações, existem indivíduos capazes de manipular tais elementos. São os chamados "dobradores" ou, o termo em inglês "benders" (que curiosamente é um termo britânico para "homossexuais". O filme não está sendo levado muito a sério por lá).
Existe, no entanto, um indivíduo capaz de manipular todos os 4 elementos. Se trata do Avatar (a palavra "avatar" por vezes, significa a "representação física de uma divindade" na Terra), e tal Avatar é fundamental para manter o controle entre as nações e proteger todos de qualquer rebelião.
Porém a alguns anos atrás, uma das encarnações dessa divindade, que deveria conter uma revolta da Nação do Fogo, simplesmente desapareceu.
Porém, o espírito reencarnou em um simpático garotinho, chamado Aang (o moleque da seta na cabeça). Ele se une a dois indivíduos da Nação da Água (Sokka e Katara) para tentar por fim à tirania da nação do fogo.
Ah, e Aang é um dobrador de Ar (ou Mestre do Ar, como diz o título nacional).

Se trata na verdade, da primeira temporada inteira do desenho (entitulada Livro Um: Água). Então é difícil mesmo espremer tantos episódios em pouco menos de duas horas de filme. Então várias informações são simplesmente jogadas na cara do espectador. A pressa do filme é tamanha que muitos fatos importantíssimos do desenho se tornam meras observações (e mesmo essas são feitas com pressa).

As mudanças em relação ao desenho também são bastante absurdas.
Por exemplo, aqui no filme, os dobradores do fogo não são capazes de criar fogo das próprias mãos, eles necessitam de uma fonte de fogo pré-existente.
Porra, se é assim, então é só apagar a fonte de fogo que eles ficam na merda! Mas ninguém pensa nisso em nenhum momento do filme. No desenho, eles podiam criar fogo quando bem entendessem, e isso os tornava tão ameaçadores e justificaria também tamanha submissão dos outros povos.

Em determinado momento eles chegam a uma prisão onde se encontram vários dobradores de terra. E a prisão é completamente feita de... terra!
Meu Deus, porque os bacanas lá não simplesmente manipulam as montanhas e a terra sob os pés e destroem os guardas da nação do fogo que montam guarda? Mesmo assim, nada disso acontece. É preciso que Aang chegue e faça um discurso, para só então acontecer alguma coisa.
No desenho, se tratava de uma prisão de metal no meio do oceano, tornando muito mais compreensível os prisioneiros da nação da terra ficarem desestimulados a reagir.

E já que mencionei essa cena da prisão, aqui abro espaço para críticar outra imensa falha do filme: o próprio diretor.
Shyamalan tenta imprimir seu estilo (que funcionou MUITO BEM em suas outras obras menores) em praticamente toda cena. Qual o propósito de enfiar um plano-sequência no meio dessa revolta na prisão?
(planos-sequência são quando a câmera acompanha uma cena por um bom tempo, sem cortes aparentes, quase como se fosse o ponto de vista de uma pessoa observando o transcorrer da cena).
Uma cena dessa, implora por uma montagem um pouco mais frenética ou com mais cortes, justamente pela fluidez da cena. Ela precisa ser empolgante! Do jeito que ficou, ela acaba ficando monótona.

E só uma pausa para comentar algo dessa mesma cena: quando vi vários dobradores de terra fazendo movimentos sincronizados, eu pensei que eles fossem explodiar todo aquele cânion, afinal no desenho, ao somarem forças, o poder liberado pelos mesmos era monstruoso. Mas eis que vejo uma pedrinha saindo da terra, e então surge um OUTRO dobrador que é responsável por arremessar a pedra, afinal aparentemente uns 10 dobradores de terra não conseguiram tal feito. (eu os apelidei de Backstreet Benders, reparou no título do post? =D )

Enfim, sinto que escrevi demais. Existem mais falhas do que essas, mas agora vou chamar atenção para pontos positivos, afinal, o filme também não é um desastre completo.

A sequência da libertação de Aang do cativeiro pelo "espírito azul" é bem realizada. O filme contém dois excelentes atores que roubam todas as cenas. Se tratam de Dev Patel (o Jamal de Quem Quer ser um Milionário?) como príncipe Zuko e Shaun Toub como seu tio Iroh. Quando os dois aparecem em cena, o filme ganha vida e se torna mais interessante.
E a cena final, com Aang exibindo seu verdadeiro poder diante da Nação do Fogo, apesar de empalidecer terrivelmente em relação ao final simplesmente sensacional do desenho, se mantém ainda muito boa, principalmente devido a sua trilha sonora.

Eu sei que não parece, mas eu gostei bastante do filme.

O problema é compará-lo com o ótimo desenho em que ele foi baseado, que aí sim ele se mostra bem fraco. E para quem assistiu tanto ao desenho quanto ao filme, fazer tal comparação é inevitável.

É isso aí.



obs.: o 3D desse filme é totalmente inútil. Tava até para assistir sem o óculos algumas cenas. Assista em 2D, vale mais a pena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário