O Red Hot Chili Peppers teve o "Californication". O Nirvana teve o "Nevermind". Metallica teve o "Master of Puppets" (e posteriormente o Black Album), o Iron Maiden teve o "Powerslave" e o System of a Down teve o "Toxicity", só para citar alguns exemplos. Nenhum desses exemplos mencionados se trata de um álbum de estréia.
Pois o Linkin Park, que todos conhecem, conseguiu lançar um divisor de águas logo no seu CD de estréia, o 'Hybrid Theory", de 2000.
Na época, todo mundo ficou fã da banda. De fato, com 12 faixas, todas ótimas e grudentas, além de contar com uma curtíssima duração (tinha pouco mais de 30 min, o novo do Iron Maiden tem duas faixas a menos, mas tem 1h27min, só para comparar) o CD caiu nas graças do público, que o tornou o segundo álbum mais bem vendido da década passada (atrás apenas do álbum "1" dos Beatles) e lançou hits eternos como "In the End", "Crawling" e "One Step Closer".
O sucesso e as turnês foram tamanhas que a banda só arranjou tempo pra gravar um novo álbum 3 anos depois, lançando então o "Meteora", em 2003, outro que foi elogiado, e que obteve um sucesso colossal, (considero o Meteora o auge dos caras).
E nessa época, eu estava na época em que "odiar modinhas" era bacana. Sendo um fã de metal, como sou, assim que vi simplesmente TODO MUNDO gostando do LP, deixei de dar atenção à banda. Fazer o que, todo metaleiro tem a sua fase xiita, pode ter certeza.
Quatro anos depois disso, agora em 2007, eu já uma pessoa diferente, que já gostava de reggae, e já abria a mente para outros tipos de música sem problemas, vi que o Linkin Park havia lançado um novo álbum chamado "Minutes to Midnight". E quando ouvi, eu fui um dos poucos que gostou do CD imediatamente. Linkin Park havia definitivamente amadurecido seu som, contando músicas bem construídas como "No More Sorrow" e a sensacional "Bleed it Out" (minha favorita deles até hoje), além de algumas baladas.
Havia um viés mais político na banda também (por exemplo, o título Minutes to Midnight faz referência ao famoso Relógio da Guerra Fria, em que quanto mais próximo da meia-noite, mais próximo estaríamos de um conflito nuclear, que também serviu de referência para a clássica "2 Minutes to Midnight" do Iron Maiden).
A banda some mais uma vez, e só reaparece esse ano com o álbum "A Thousand Suns", que tive o prazer de escutar essa semana.
À primeira ouvida, o CD soa bastante estranho. Pra começar que as guitarras estão praticamente inexistentes, coisa impensável considerando que LP se caracteriza com uma guitarra pesada em quase todas as suas músicas. Existem aqui várias vinhetas (cinco, para ser mais exato) além da primeira faixa que serve apenas de introdução. O primeiro single da banda, "The Catalyst" tem quase 6 minutos de duração, o que é muito em se tratando de Linkin Park.
Minha reação inicial foi basicamente pensar "mas que porra é essa?". Mas após uma segunda, uma terceira e até uma quarta ouvida, estou começando a desconfiar que se trata de um dos meus álbuns favorito dos caras (quase chegando perto do insuperável Meteora).
Contando com um tom um tanto apocalíptico em suas letras, o CD abraça o tema "fim do mundo" sem medo. A primeira faixa, "The Requiem" é uma introdução de 2 minutos em que uma voz distorcida feminina canta "Deus salve a todos nós/ queimaremos nas chamas de mil sóis/ pelos pecados de nossas mãos/ pelos pecados de nossa língua/ pelos pecados de nosso pai/ pelos pecados de nossos jovens", que emenda logo em seguida com a vinheta "The Radiance", que se trata do famoso discurso de Robert Oppenheimer, criador da bomba atômica (aquele do "hoje me torno Morte, tornei-me o destruidor de mundos").
Além do mais devo chamar atenção para esse detalhe. As faixas não estão separadas, elas se fundem umas com as outras. No final de uma, já estamos ouvindo a introdução da próxima. Portanto, A Thousand Suns é um ÁLBUM que deve ser conferido na íntegra, pois suas faixas separadas perdem bastante do seu impacto.
A primeira música de verdade é a terceira faixa, "Burning in the Skies". Aí se espera que ela exploda num som insurdecedor de guitarras e berros do Chester Bennington (vocalista), certo? Pois a banda toma exatamente o caminho inverso e inicia com uma balada. Com letras apocalípticas, sim, mas ainda assim uma balada, com aquele relativamente manjado, porém verdadeiro, tema da humanidade responsável pela própria destruição ("estou nadando na fumaça das pontes que queimei/ (...) estou perdendo aquilo que não mereço").
Outra característica interessante aqui é que as vozes do Chester e do Mike por vezes se misturam e não dá pra saber quem tá cantando. Mike, que antes cantava só a parte rap das músicas, agora aprendeu a cantar bem e rivaliza até mesmo com o seu parceiro vocalista em faixas como a sensacional (e melhor do CD) "The Catalyst". E só sei que ele canta boa parte dessa música porque vi no clipe oficial lançado, já que as vozes estão por vezes difíceis de distinguir.
Muito gente vai torcer o nariz para esse CD, e com motivo. A banda dá uma mudada considerável em seu estilo, e além disso, se trata de um disco particularmente difícil de escutar. Exige, sem dúvida, mais de uma escutada. Já que mesmo após eu ter ouvido umas 5 vezes o CD inteiro, ainda assim encontro coisas novas que não tinha percebido. É justamente por isso que considero esse o trabalho mais corajoso e interessante do Linkin Park, além de que como eu disse, provavelmente se tornará um dos meus favoritos em breve.
Eu fico muito feliz por essa banda, que considerei apenas uma modinha a 7 anos atrás, se apresentar hoje como uma das bandas mais interessantes e relevantes do (infelizmente) decadente meio musical atual.
Parabéns pros caras. Que venha outro ainda melhor que esse.
Valeu!
obs.: o título do cd, "A Thousand Suns", vem de um texto hindú, que Robert Oppenheimer citou, e tornou famoso, ao descrever a bomba atômica:
"Se a radiação de mil sóis explodisse ao mesmo tempo pelos céus, seria como o esplendor do Todo Poderoso."




