Hoje vou falar sobre música, já que foi basicamente o que fiz hoje o dia inteiro.
Embora eu seja perdidamente apaixonado por música (ou talvez por causa disso), sou ao mesmo tempo bastante chato em relação a esse assunto. Na realidade, eu peco por não ter a mente muito aberta a certas bandas, bandas essas que sempre acabam me surpreendendo e me fazendo retirar tudo que havia dito anteriormente.
Uma dessas é Pearl Jam, que eu por algum motivo não-inteligente me recusava a ouvir. Até que forçadamente acabei escutando Jeremy, provavelmente a música mais famosa deles, e agora não escuto outra coisa senão esses caras nas últimas duas semanas.
A minha mais recente treta era com a tal da Adele. Chegava até a ficar com pavio curto quando alguém vinha mencionar a moça. Achava que era apenas mais uma das artistas de momento, que logo iria sumir. Afinal, nós somos dosados anualmente com várias e várias dessas. Mas hoje, entediado, mudando de canal na TV, eis que paro em um em que estava passando o novo DVD da moça na íntegra.
E que droga, tenho que confessar. A moça arrebentou com tudo.
Eu li uma das críticas do show, e um indivíduo lá (que infelizmente não me recordo o nome), disse que por vezes esquecia que estava assistindo apenas um DVD já que ele se pegava aplaudindo Adele após algumas músicas. Foi a mesma sensação que eu tive.
Eu gostei muito de ver uma artista se entregando tão profundamente em sua performance (coisa que nós roqueiros já estamos acostumados a ver com muitas de nossas bandas), e principalmente, fazê-lo sem nenhuma frescura. Ela não precisa de espetáculos visuais, de várias roupas extravagantes, de apelo sexual descarado. Nada disso. É a moça cantando e só, e ela consegue fazer um show intenso e tocante. E vê-la chorando após "Someone Like You" (que está tocando em TODO lugar o tempo todo) só me fez admirá-la ainda mais. Só me fez pensar que ela é uma pessoa linda e um ser humano adorável, só espero que eu não esteja enganado.
Mas o que me deixou mais feliz, foi quando fui pesquisar mais sobre a mulher depois do show, e que vi que esse novo CD dela, o "21" é um estrondoso fenômeno de vendas. Sim, contrariando o tenebroso caminho que a humanidade está seguindo, de parar de ouvir os álbuns e começar a ouvir apenas faixas separadas pela internet, esse disco ultrapassou a barreira dos 13 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Isso é de assombrar, já que qualquer um pode consegui-lo na íntegra facilmente, e nem pagar nada por isso. Querem uma comparação? O disco mais vendido de 2010 foi o "Recovery" do Eminem (de quem sou fã, e cujo CD comentei neste mesmo blog), com 5,7 milhões de cópias no mundo inteiro. Menos da metade do que o "21".
Eu sou um ávido admirador de CDs. Não da tecnologia, mas da idéia de pegar um álbum de uma banda ou artista que gostamos, e ouví-lo do começo ao fim. Existem alguns desses álbuns que foram construídos em cima dessa idéia. Como o "Seventh Son of a Seventh Son" do Iron Maiden (todas as faixas giram em torno da lenda do nascimento do sétimo filho do sétimo filho, que teria poderes sobrenaturais) ou o "The Downward Spiral" do Nine Inch Nails (que seguem o rumo de um indivíduo que lentamente abre mão de tudo em sua vida, até atingir um ponto sem retorno nas faixas finais). São os chamados "álbuns conceituais", e eu os considero geniais, apenas por serem assim. Esses dois álbuns mencionados foram um estrondoso sucesso em suas próprias épocas. O do Iron Maiden, lançado em 88, explodiu muito mais no Reino Unido, terra natal da banda. E o do Nine Inch Nails, praticamente desconhecido no Brasil, chegou a vender 5 milhões de cópias só nos EUA, ainda mais seguindo a devastadora performance da banda no Woodstock de 94. Porém, com o avanço das tecnologias, o conceito de ouvir um CD do início ao fim foi morrendo. E aos poucos sendo substituído por Ipods e semelhantes. E assim, os álbuns pararam de vender. Os grandes fenômenos da música, como foi Nirvana com os 30 milhões de cópias vendidas do "Nevermind", ou como foi o Linkin Park com os 24 milhões do "Hybrid Theory", ou o próprio Michael Jackson com os mais de 100 milhões vendidos de "Thriller" estavam destinados ao esquecimento.
Eis que surge Adelle, e em menos de um ano, o álbum da moça alcança a marca de 13 milhões. Sei que pareço estar falando apenas em dinheiro, e em sucesso. E é verdade que para a qualidade musical, isso pouco significa. Mas estou falando de mais do que isso. Estou falando de várias pessoas, milhões no mundo inteiro, realmente parando e sentando para ouvir música, que é uma das grandes maravilhas da humanidade. É isso que considero tão apaixonante ao verificar esses grandes fenômenos. Afinal, poucos se lembram do "In Utero", que considero o melhor álbum do Nirvana. Mas todo mundo sabe qual é o "Nevermind", bem como conhecem praticamente metade do CD de cor. (Pensa que não? Sabe todas as músicas que você, não-fã de Nirvana, conhece da banda? Poizé, são todas desse álbum).
Se trata de uma banda ou artista, criando um legado, que de certa forma uniu várias pessoas, que pararam para prestar atenção. Futuramente, comentarão a respeito, assim como comentam de várias obras que já passaram. Comentarão a respeito de músicas que marcaram época, que os tocaram de alguma forma, que significam algo para eles.
O estrondoso sucesso de Adele apenas serve como esperança, de que a época em que a música ainda tinha a capacidade de ser apaixonante, de ser mágica, de significar algo para muitas pessoas, ainda não morreu. E felizmente, o sucesso veio para um artista tão talentosa quanto essa mulher. (Embora Lady Gaga também represente um pouco dessa esperança. "Born This Way" dela, lançado esse ano, vendeu 8 milhões de cópias, que antes do rolo compressor que foi "21", era considerado um mega-sucesso).
Só é uma pena, que nenhum desses grandes sucessos tenham sido de bandas do bom e velho rock, pelo qual sou perdidamente apaixonado. Afinal, Coldplay e Red Hot Chili Peppers lançaram álbuns esse ano também. Mas e aí?
Coldplay ainda teve seu lugar ao sol, já que as músicas "Every Teardrop is a Waterfall" e "Paradise" foram um bom sucesso, e a banda teve uma épica apresentação no Rock in Rio esse ano. Mas as pessoas baixaram essas músicas pela internet e ficou por isso mesmo. Não que o Mylo Xyloto do Coldplay seja um álbum espetacular, pois não é (nele, o Coldplay é apenas Coldplay. E foi provado que são muito bons em ser Coldplay. Mas também são muito bons quando tentam coisas novas, "Violet Hill" está aí pra provar. Então por que não fazê-lo com mais frequencia?). O CD não chegou nem perto do alvoroço que foi o A Rush of Blood to the Head (que o mundo inteiro conhece 70% de cor).
Já o Red Hot não conseguiu nem isso, nem mesmo com sua apresentação no Rock in Rio. O que é uma pena, já que lançaram um bom CD. Talvez porque padeça do mesmo problema do Mylo Xyloto. Acabaram fazendo apenas mais do mesmo, como se esse novo trabalho fossem apenas faixas para encher setlist. Quando será que eles vão criar algo como Californication de novo? Praticamente todas as música daquele álbum se tornaram fenômenos naquela época. E eles fizeram de novo em 2002, com By the Way.
Talvez a geração tenha mudado, talvez a nova geração não curta muito o bom e velho rock. Mas nunca se sabe. Antes da explosão do rock em 99, com bandas como Limp Bizkit, The Offspring, Red Hot Chili Peppers, Slipknot, Blink 182, dentre outras, o cenário musical era dominado pelo pop com os Backstreet Boys e a Britney Spears (que vendeu inacreditáveis 26 milhões de cópias com seu "Baby one More time").
Será que o rock está prestes a retornar? E com força total?
Não custa nada sonhar!
Valeu!
Pra quem teve a paciência de ler, muito obrigado mesmo!
domingo, 25 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
"A felicidade mora ao lado."
Quando não parece haver nada de bom nos cinemas, você recorre às locadoras.
Período abençoado das férias em que se há tempo para realmente fazer as coisas, resolvi alugar uma leva de clássicos (e alguns não tão clássicos assim) que eu já devia ter assistido, mas por algum motivo ou outro, acabei não assistindo. E eu confesso que estava assistindo-os praticamente no automático, não dando o devido valor a cada um. Até o ponto em que surgiu uma grata surpresa.
Em 1998, um tal de Todd Solondz dirigiu um filme espetacular chamado "Felicidade" (Happiness). Completamente ignorado pelo Oscar (como geralmente ocorre com filmes controversos e difíceis de assistir), recebendo apenas uma mísera indicação ao Globo de Ouro (Melhor Roteiro), que ele perdeu para o superestimado "Shakespeare Apaixonado" (filme que levou sem merecimento algum Oscars que eram por direito de filmes com "O Resgate do Soldado Ryan" e "Requiem Para um Sonho"). Esse "Felicidade" merecia muito mais, já que se trata de um filme genial.
Contanto com um elenco extremamente talentoso, o filme tem um formato que eu particularmente gosto muito. Aquele em que existem vários personagens, com histórias entrelaçadas, e nenhum deles coadjuvante (formato em que Paul Thomas Anderson se especializou, com "Boogie Nights" e "Magnólia"). Centrada em torno de uma família, composta por um casal de idosos e três filhas, a história se desenrola na medida em que se estendem as teias de relacionamentos de cada uma dessas filhas. Uma delas é solteira, constantamente rejeitada, que busca encontrar um parceiro; a outra é casada com um psiquiatra e possui três filhos pequenos; e a terceira é uma escritora desejada sexualmente por vários homens. Com esta base, as histórias passam a se estender. Um dos pacientes do psiquiatra (Philip Seymour Hoffman, SENSACIONAL) tem uma doentia fascinação pela terceira irmã. Ao mesmo ele possui uma estranha vizinha, que parece sempre querer informá-lo de tudo que acontece no prédio. O já mencionado psiquiatra, embora inicialmente se mostre como um homem calmo e sensato, aos poucos passa a revelar sua natureza sombria (que eu não irei revelar, mas acreditem, é pertubador). A primeira irmã, a rejeitada, decide largar o emprego e passar a trabalhar como voluntária para ajudar estrangeiros como professora, que é quando ela se apaixona por um de seus alunos.
Nesta trama, todos buscam a felicidade de uma forma distorcida e sombria, e eventualmente acabam encontrando-a, embora jamais seja o bastante. E se esta história tem um enorme potencial para se tornar um filme extremamente denso, melancólico e pesado, aí está a genialidade de Todd Solondz. Tudo é apresentado de forma irônica e bem-humorada, o que é algo que aparentava ser inimaginável, dada a complexidade dos temas. Mas o filme de forma alguma suaviza a polêmica. É como se ele constantemente chocasse o espectador, e ao mesmo tempo, risse disso o tempo todo. Uma prova disso é a última cena protagonizada pelo psiquiatra e seu filho, composta apenas por diálogo, mas extremamente difícil de assistir.
O diálogo por sinal, é genial em todos os momentos. Nada soa gratuito, nada está ali apenas para chocar. Tudo é orgânico e parte importante da trama. E merece aplausos por cria uma situação tão paradoxal, de apresentar temas extremamente polêmicos e pesados de forma tão irônica. O elenco inteiro também está impecável, com destaque a Dylan Baker como o psiquiatra, que pegou um dos papéis mais difíceis que existe e o carregou nos ombros como se não houvesse peso algum.
Eu não conhecia este diretor, e agora vi que ele não dirigiu muitos filmes. Mas agora vou procurar esses filmes por aí. Enquanto isso, eu deixo essa recomendação. Assistam esse "Felicidade", pois é um filmaço. Mas deixo também avisado, trata-se uma de obra extremamente pertubadora.
Abraços!
Período abençoado das férias em que se há tempo para realmente fazer as coisas, resolvi alugar uma leva de clássicos (e alguns não tão clássicos assim) que eu já devia ter assistido, mas por algum motivo ou outro, acabei não assistindo. E eu confesso que estava assistindo-os praticamente no automático, não dando o devido valor a cada um. Até o ponto em que surgiu uma grata surpresa.
Em 1998, um tal de Todd Solondz dirigiu um filme espetacular chamado "Felicidade" (Happiness). Completamente ignorado pelo Oscar (como geralmente ocorre com filmes controversos e difíceis de assistir), recebendo apenas uma mísera indicação ao Globo de Ouro (Melhor Roteiro), que ele perdeu para o superestimado "Shakespeare Apaixonado" (filme que levou sem merecimento algum Oscars que eram por direito de filmes com "O Resgate do Soldado Ryan" e "Requiem Para um Sonho"). Esse "Felicidade" merecia muito mais, já que se trata de um filme genial.
Contanto com um elenco extremamente talentoso, o filme tem um formato que eu particularmente gosto muito. Aquele em que existem vários personagens, com histórias entrelaçadas, e nenhum deles coadjuvante (formato em que Paul Thomas Anderson se especializou, com "Boogie Nights" e "Magnólia"). Centrada em torno de uma família, composta por um casal de idosos e três filhas, a história se desenrola na medida em que se estendem as teias de relacionamentos de cada uma dessas filhas. Uma delas é solteira, constantamente rejeitada, que busca encontrar um parceiro; a outra é casada com um psiquiatra e possui três filhos pequenos; e a terceira é uma escritora desejada sexualmente por vários homens. Com esta base, as histórias passam a se estender. Um dos pacientes do psiquiatra (Philip Seymour Hoffman, SENSACIONAL) tem uma doentia fascinação pela terceira irmã. Ao mesmo ele possui uma estranha vizinha, que parece sempre querer informá-lo de tudo que acontece no prédio. O já mencionado psiquiatra, embora inicialmente se mostre como um homem calmo e sensato, aos poucos passa a revelar sua natureza sombria (que eu não irei revelar, mas acreditem, é pertubador). A primeira irmã, a rejeitada, decide largar o emprego e passar a trabalhar como voluntária para ajudar estrangeiros como professora, que é quando ela se apaixona por um de seus alunos.
Nesta trama, todos buscam a felicidade de uma forma distorcida e sombria, e eventualmente acabam encontrando-a, embora jamais seja o bastante. E se esta história tem um enorme potencial para se tornar um filme extremamente denso, melancólico e pesado, aí está a genialidade de Todd Solondz. Tudo é apresentado de forma irônica e bem-humorada, o que é algo que aparentava ser inimaginável, dada a complexidade dos temas. Mas o filme de forma alguma suaviza a polêmica. É como se ele constantemente chocasse o espectador, e ao mesmo tempo, risse disso o tempo todo. Uma prova disso é a última cena protagonizada pelo psiquiatra e seu filho, composta apenas por diálogo, mas extremamente difícil de assistir.
O diálogo por sinal, é genial em todos os momentos. Nada soa gratuito, nada está ali apenas para chocar. Tudo é orgânico e parte importante da trama. E merece aplausos por cria uma situação tão paradoxal, de apresentar temas extremamente polêmicos e pesados de forma tão irônica. O elenco inteiro também está impecável, com destaque a Dylan Baker como o psiquiatra, que pegou um dos papéis mais difíceis que existe e o carregou nos ombros como se não houvesse peso algum.
Eu não conhecia este diretor, e agora vi que ele não dirigiu muitos filmes. Mas agora vou procurar esses filmes por aí. Enquanto isso, eu deixo essa recomendação. Assistam esse "Felicidade", pois é um filmaço. Mas deixo também avisado, trata-se uma de obra extremamente pertubadora.
Abraços!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
"A menos que você ame, sua vida passará em um piscar de olhos."
Demorei 1 ano para voltar a postar. Aliás mais do que 1 ano.
Olhando agora, eu me surpreendo (e fico muito feliz) ao ver o quanto mudei neste ano.
Coisas boas aconteceram, outras MUITO boas, e outras não tão boas assim.
Mas tudo contribuiu para o melhor. Para uma melhora. Esse é o propósito da vida, não é?
No primeiro post desse blog, eu escrevi sobre o filme A Origem.
Para quem leu o título do blog e sacou a referência, percebeu também que esse filme foi basicamente o motivo de eu começar a escrever aqui. Tamanho filmaço, me deixou sem reação, orgulhoso de ter visto, feliz por estar vivo na época em que ele foi lançado e tudo mais. Na verdade, esta é minha reação toda vez que a arte (a mais brilhante invenção humana) consegue me inspirar, me deixar sem palavras.
A Origem me inspirou a realizar até mesmo mudanças em minha vida, inclusive uma extremamente significativa ano passado. E me inspirou a escrever. Este é o poder da arte, bendita seja.
Mas o ponto que quero chegar é, o motivo de eu ter começado a escrever foi ter visto um filme que me inspirou a fazê-lo. Porém após um tempo, a inspiração passou, coisas aconteceram, e eu acabei nem escrevendo mais. Passou 2011 quase inteiro, e agora no final, a surpresa me atingiu quando vendo na minha barra de favoritos estava meu próprio blog. Fiquei feliz por ele ainda existir. Foi bem aí nesse momento que a inspiração começou a voltar. Decidi escrever sobre o próximo filme que eu visse.
Porém o próximo filme que vi foi a aberração conhecida como "Amanhecer - Parte 1". Não vou nem comentar nada, porque posso querer falar dele mais adiante. Mas raciocinei assim: "não posso escolher um filme tão ruim para servir de pontapé para voltar a escrever". E decidi esperar o seguinte. Porém acabei não dando sorte.
E as férias chegaram. E acabou que o filme que iria me inspirar de vez a sentar aqui e escrever seria um que eu já havia visto no meio do ano. Mas ele foi tão bom (e esquisito) que foi necessário alugar para ver novamente. E assim chegamos à obra-prima chamada Árvore da Vida, de Terrence Malick.
Olhando agora, eu me surpreendo (e fico muito feliz) ao ver o quanto mudei neste ano.
Coisas boas aconteceram, outras MUITO boas, e outras não tão boas assim.
Mas tudo contribuiu para o melhor. Para uma melhora. Esse é o propósito da vida, não é?
No primeiro post desse blog, eu escrevi sobre o filme A Origem.
Para quem leu o título do blog e sacou a referência, percebeu também que esse filme foi basicamente o motivo de eu começar a escrever aqui. Tamanho filmaço, me deixou sem reação, orgulhoso de ter visto, feliz por estar vivo na época em que ele foi lançado e tudo mais. Na verdade, esta é minha reação toda vez que a arte (a mais brilhante invenção humana) consegue me inspirar, me deixar sem palavras.
A Origem me inspirou a realizar até mesmo mudanças em minha vida, inclusive uma extremamente significativa ano passado. E me inspirou a escrever. Este é o poder da arte, bendita seja.
Mas o ponto que quero chegar é, o motivo de eu ter começado a escrever foi ter visto um filme que me inspirou a fazê-lo. Porém após um tempo, a inspiração passou, coisas aconteceram, e eu acabei nem escrevendo mais. Passou 2011 quase inteiro, e agora no final, a surpresa me atingiu quando vendo na minha barra de favoritos estava meu próprio blog. Fiquei feliz por ele ainda existir. Foi bem aí nesse momento que a inspiração começou a voltar. Decidi escrever sobre o próximo filme que eu visse.
Porém o próximo filme que vi foi a aberração conhecida como "Amanhecer - Parte 1". Não vou nem comentar nada, porque posso querer falar dele mais adiante. Mas raciocinei assim: "não posso escolher um filme tão ruim para servir de pontapé para voltar a escrever". E decidi esperar o seguinte. Porém acabei não dando sorte.
E as férias chegaram. E acabou que o filme que iria me inspirar de vez a sentar aqui e escrever seria um que eu já havia visto no meio do ano. Mas ele foi tão bom (e esquisito) que foi necessário alugar para ver novamente. E assim chegamos à obra-prima chamada Árvore da Vida, de Terrence Malick.
Este é um dos filmes mais assombrosos que já vi em toda minha vida. Ele não possui uma história linear, não possui trama. Não possui início, meio e fim bem definidos. Ele conta a história de uma família em um subúrbio nos EUA, com Brad Pitt como o Sr. O'Brien, pai de família, a (linda) Jessica Chastain como a Sra. O'Brien, a mãe, e seus três filhos. E o filme inteiro se passa sob o ponto de vista de um deles, Jack, interpretado por um jovem ator muito bom quando criança, e por Sean Penn quando adulto. O filme inicia com a notícia da morte de seu irmão, que veio quando este tinha 19 anos. Após mostrar a forma devastadora que os pais recebem a notícia da morte do filho (a de Brad Pitt é de partir o coração), o filme volta no tempo, e mostra várias cenas isoladas. A mãe quando criança, e depois o nascimento de cada um dos filhos. Tudo isso com uma espécie de narração, que em diferentes momentos é feita pela mãe, pelo pai ou pelo próprio Jack. Esta narração não conta a história, mas solta frases por vezes imprecisas, e por vezes profundamente evocativas (falarei sobre isso depois).
E quando tudo aparenta estar caminhando para uma história, o diretor (e também roteirista) Terrence Malick interrompe, e começa a mostrar cenas do surgimento do universo, o Big Bang, a formação dos planetas, o surgimento da vida na terra, a época dos dinossauros e seu fim com a queda do meteoro.
Soou estranho? Acredite, é. Mas Terrence Malick implora que você olhe mais de perto.
Nem adianta continuar explicando a história do filme, porque como já mencionado, não existe história nenhuma. O filme passa um longo tempo mostrando imagens da natureza, das águas de um rio correndo, das árvores, do vento batendo no cabelo dos personagens, destes mesmos brincando na rua, etc. Tudo envolto em uma (EXCELENTE!!!) trilha sonora do compositor Alexander Desplat, e frases que são aos poucos ditas por cada um dos personagens. Você lembra do trailer do filme? Pois então, é aquilo ali, só que com 2h20min de duração.
Ao sair do cinema, em agosto, eu percebi que não sabia nem como começar a escrever a respeito. Eu havia quase adormecido em algumas horas, e cheguei perto de chorar em outras, em cenas que mal era possível entender o que estava acontecendo. A dificuldade para definir o filme era imensa, assim era também a dificuldade de justificar porque eu atravessei uma variedade tão grande de emoções em tão pouco tempo.
Sorte que uma magistral professora minha também assistiu o filme, e basicamente esclareceu tudo.
O filme deixa propositalmente lacunas para nós, que estamos assistindo. E nós temos de preenchê-las com nossas próprias experiências, com nossas próprias lembranças. Ele exige nossa participação, e quando aceitamos entrar nesta viagem, ele nos conduz a vários momentos de nossa vida, momentos marcantes, outro não tanto assim, mas todos significativos.
Foi assim que percebi que enquanto assistia, me lembrei de minha própria infância, de brincar com meus amigos na rua, de jogar bola todo santo dia, de não ter nenhuma preocupação no mundo. Me lembrei dos meus pais sorrindo o tempo todo, cuidando de mim. São seres iluminados que me deram tudo, e continuam me ajudando de uma forma que eu nem consigo explicar. Me lembrei de correr na chuva com meus primos quando era mais jovem, e depois todo mundo indo para casa de nosso avô, tomar o café da tarde. Me lembrei de todos os pequenos momentos em minha vida, momentos tais que estão na vida de todos.
Não se tratam de acontecimentos grandiosos, longe disso. Se tratam dos momentos mais sutis, e talvez por isso, sejam aqueles que mais marcam as vezes. Àqueles em que você está mais dentro da sua cabeça, do que ali de verdade. Momentos de observar a chuva cair. Das tardes e noites junto aos amigos. Do abraço longo e carinhoso da antiga namorada, que por um momento, foi capaz de trazer toda a felicidade do mundo. Momentos de ver o sol se pôr, e de vê-lo nascer.
São momentos que passaram, e muita coisa mudou. Agora estou mais velho, amadureci bastante, mudei. Mas lembro de todos esses momentos, que naquela época podem nem ter significado muita coisa, mas agora me emocionam profundamente, pelo que eles significaram.
É isto que A Árvore da Vida tenta atingir. Fazer você lembrar, levá-lo a uma viagem dentro de você mesmo, e fazê-lo reagir às lembranças. Não é exatamente tarefa das mais fáceis, mas é profundamente recompensadora.
Ao mesmo tempo, o filme traz algo que se faz sentir em toda sua duração: Deus.
Representado como uma luz brilhando na escuridão, em momentos distintos da trama (que o crítico Pablo Villaça, de quem sou fã, e cujos textos sempre leio, definiu tal luz como sendo a "essência da vida"), Deus é constantemente evocado pelos seus personagens. Os personagens o questionam e críticam, se perguntando aonde Ele está. Tudo isto somente para perceber que ele está em todo lugar. Nas árvores, nas águas, no céu, no chão, nas pessoas, nos animais.
O próprio Pablo Villaça diz que se existe algo inegável neste filme é a "opressiva ausência" de Deus. Eu entendo perfeitamente esta opinião, mas sou obrigado a discordar. Se tem algo que tive certeza, é a da presença de Deus em cada uma das cenas do filme. E Terrence Malick conseguiu demonstrar essa força, esta presença, sem a utilização de efeito especial algum. E por isto, o diretor merece horas de aplausos.
O que nos leva a entender talvez, o motivo das cenas mostrando a origem do universo. Com a trilha sonora que "remete ao sacro" (obrigado sr. Pablo Villaça), o filme mostra a origem de tudo. E as imagens são tão belas, os acontecimentos tão milagrosos, e ao mesmo tempo tão precisos, que é impossível que sejam fruto do acaso.
Mas esta é minha opinião. O filme insiste que você crie a sua.
Um filme bizarro, é verdade. É também um dos melhores que já vi.
Só posso dizer, que me sinto grato de ter conseguido extrair tudo isto do filme, e por ter passado por essa viagem incrível. Agradeço sinceramente, por tudo que este filme me fez pensar. E agradeço pela inspiração para voltar a escrever. E espero que essa inspiração não acabe tão cedo.
Um viva à arte!!!!
Valeu, abraço!!
obs.: aqui está a crítica de Pablo Villaça, pra quem quiser ler.
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