terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"A menos que você ame, sua vida passará em um piscar de olhos."

Demorei 1 ano para voltar a postar. Aliás mais do que 1 ano.
Olhando agora, eu me surpreendo (e fico muito feliz) ao ver o quanto mudei neste ano.
Coisas boas aconteceram, outras MUITO boas, e outras não tão boas assim.
Mas tudo contribuiu para o melhor. Para uma melhora. Esse é o propósito da vida, não é?

No primeiro post desse blog, eu escrevi sobre o filme A Origem.
Para quem leu o título do blog e sacou a referência, percebeu também que esse filme foi basicamente o motivo de eu começar a escrever aqui. Tamanho filmaço, me deixou sem reação, orgulhoso de ter visto, feliz por estar vivo na época em que ele foi lançado e tudo mais. Na verdade, esta é minha reação toda vez que a arte (a mais brilhante invenção humana) consegue me inspirar, me deixar sem palavras.
A Origem me inspirou a realizar até mesmo mudanças em minha vida, inclusive uma extremamente significativa ano passado. E me inspirou a escrever. Este é o poder da arte, bendita seja.

Mas o ponto que quero chegar é, o motivo de eu ter começado a escrever foi ter visto um filme que me inspirou a fazê-lo. Porém após um tempo, a inspiração passou, coisas aconteceram, e eu acabei nem escrevendo mais. Passou 2011 quase inteiro, e agora no final, a surpresa me atingiu quando vendo na minha barra de favoritos estava meu próprio blog. Fiquei feliz por ele ainda existir. Foi bem aí nesse momento que a inspiração começou a voltar. Decidi escrever sobre o próximo filme que eu visse.

Porém o próximo filme que vi foi a aberração conhecida como "Amanhecer - Parte 1". Não vou nem comentar nada, porque posso querer falar dele mais adiante. Mas raciocinei assim: "não posso escolher um filme tão ruim para servir de pontapé para voltar a escrever". E decidi esperar o seguinte. Porém acabei não dando sorte.

E as férias chegaram. E acabou que o filme que iria me inspirar de vez a sentar aqui e escrever seria um que eu já havia visto no meio do ano. Mas ele foi tão bom (e esquisito) que foi necessário alugar para ver novamente. E assim chegamos à obra-prima chamada Árvore da Vida, de Terrence Malick.



Este é um dos filmes mais assombrosos que já vi em toda minha vida. Ele não possui uma história linear, não possui trama. Não possui início, meio e fim bem definidos. Ele conta a história de uma família em um subúrbio nos EUA, com Brad Pitt como o Sr. O'Brien, pai de família, a (linda) Jessica Chastain como a Sra. O'Brien, a mãe, e seus três filhos. E o filme inteiro se passa sob o ponto de vista de um deles, Jack, interpretado por um jovem ator muito bom quando criança, e por Sean Penn quando adulto. O filme inicia com a notícia da morte de seu irmão, que veio quando este tinha 19 anos. Após mostrar a forma devastadora que os pais recebem a notícia da morte do filho (a de Brad Pitt é de partir o coração), o filme volta no tempo, e mostra várias cenas isoladas. A mãe quando criança, e depois o nascimento de cada um dos filhos. Tudo isso com uma espécie de narração, que em diferentes momentos é feita pela mãe, pelo pai ou pelo próprio Jack. Esta narração não conta a história, mas solta frases por vezes imprecisas, e por vezes profundamente evocativas (falarei sobre isso depois).
E quando tudo aparenta estar caminhando para uma história, o diretor (e também roteirista) Terrence Malick interrompe, e começa a mostrar cenas do surgimento do universo, o Big Bang, a formação dos planetas, o surgimento da vida na terra, a época dos dinossauros e seu fim com a queda do meteoro.

Soou estranho? Acredite, é. Mas Terrence Malick implora que você olhe mais de perto.

Nem adianta continuar explicando a história do filme, porque como já mencionado, não existe história nenhuma. O filme passa um longo tempo mostrando imagens da natureza, das águas de um rio correndo, das árvores, do vento batendo no cabelo dos personagens, destes mesmos brincando na rua, etc. Tudo envolto em uma (EXCELENTE!!!) trilha sonora do compositor Alexander Desplat, e frases que são aos poucos ditas por cada um dos personagens. Você lembra do trailer do filme? Pois então, é aquilo ali, só que com 2h20min de duração.

Ao sair do cinema, em agosto, eu percebi que não sabia nem como começar a escrever a respeito. Eu havia quase adormecido em algumas horas, e cheguei perto de chorar em outras, em cenas que mal era possível entender o que estava acontecendo. A dificuldade para definir o filme era imensa, assim era também a dificuldade de justificar porque eu atravessei uma variedade tão grande de emoções em tão pouco tempo.

Sorte que uma magistral professora minha também assistiu o filme, e basicamente esclareceu tudo.

O filme deixa propositalmente lacunas para nós, que estamos assistindo. E nós temos de preenchê-las com nossas próprias experiências, com nossas próprias lembranças. Ele exige nossa participação, e quando aceitamos entrar nesta viagem, ele nos conduz a vários momentos de nossa vida, momentos marcantes, outro não tanto assim, mas todos significativos.

Foi assim que percebi que enquanto assistia, me lembrei de minha própria infância, de brincar com meus amigos na rua, de jogar bola todo santo dia, de não ter nenhuma preocupação no mundo. Me lembrei dos meus pais sorrindo o tempo todo, cuidando de mim. São seres iluminados que me deram tudo, e continuam me ajudando de uma forma que eu nem consigo explicar. Me lembrei de correr na chuva com meus primos quando era mais jovem, e depois todo mundo indo para casa de nosso avô, tomar o café da tarde. Me lembrei de todos os pequenos momentos em minha vida, momentos tais que estão na vida de todos.
Não se tratam de acontecimentos grandiosos, longe disso. Se tratam dos momentos mais sutis, e talvez por isso, sejam aqueles que mais marcam as vezes. Àqueles em que você está mais dentro da sua cabeça, do que ali de verdade. Momentos de observar a chuva cair. Das tardes e noites junto aos amigos. Do abraço longo e carinhoso da antiga namorada, que por um momento, foi capaz de trazer toda a felicidade do mundo. Momentos de ver o sol se pôr, e de vê-lo nascer.

São momentos que passaram, e muita coisa mudou. Agora estou mais velho, amadureci bastante, mudei. Mas lembro de todos esses momentos, que naquela época podem nem ter significado muita coisa, mas agora me emocionam profundamente, pelo que eles significaram.
É isto que A Árvore da Vida tenta atingir. Fazer você lembrar, levá-lo a uma viagem dentro de você mesmo, e fazê-lo reagir às lembranças. Não é exatamente tarefa das mais fáceis, mas é profundamente recompensadora.

Ao mesmo tempo, o filme traz algo que se faz sentir em toda sua duração: Deus.
Representado como uma luz brilhando na escuridão, em momentos distintos da trama (que o crítico Pablo Villaça, de quem sou fã, e cujos textos sempre leio, definiu tal luz como sendo a "essência da vida"), Deus é constantemente evocado pelos seus personagens. Os personagens o questionam e críticam, se perguntando aonde Ele está. Tudo isto somente para perceber que ele está em todo lugar. Nas árvores, nas águas, no céu, no chão, nas pessoas, nos animais.
O próprio Pablo Villaça diz que se existe algo inegável neste filme é a "opressiva ausência" de Deus. Eu entendo perfeitamente esta opinião, mas sou obrigado a discordar. Se tem algo que tive certeza, é a da presença de Deus em cada uma das cenas do filme. E Terrence Malick conseguiu demonstrar essa força, esta presença, sem a utilização de efeito especial algum. E por isto, o diretor merece horas de aplausos.
O que nos leva a entender talvez, o motivo das cenas mostrando a origem do universo. Com a trilha sonora que "remete ao sacro" (obrigado sr. Pablo Villaça), o filme mostra a origem de tudo. E as imagens são tão belas, os acontecimentos tão milagrosos, e ao mesmo tempo tão precisos, que é impossível que sejam fruto do acaso.
Mas esta é minha opinião. O filme insiste que você crie a sua.
Um filme bizarro, é verdade. É também um dos melhores que já vi.

Só posso dizer, que me sinto grato de ter conseguido extrair tudo isto do filme, e por ter passado por essa viagem incrível. Agradeço sinceramente, por tudo que este filme me fez pensar. E agradeço pela inspiração para voltar a escrever. E espero que essa inspiração não acabe tão cedo.

Um viva à arte!!!!

Valeu, abraço!!


obs.: aqui está a crítica de Pablo Villaça, pra quem quiser ler.

Nenhum comentário:

Postar um comentário