Quando não parece haver nada de bom nos cinemas, você recorre às locadoras.
Período abençoado das férias em que se há tempo para realmente fazer as coisas, resolvi alugar uma leva de clássicos (e alguns não tão clássicos assim) que eu já devia ter assistido, mas por algum motivo ou outro, acabei não assistindo. E eu confesso que estava assistindo-os praticamente no automático, não dando o devido valor a cada um. Até o ponto em que surgiu uma grata surpresa.
Em 1998, um tal de Todd Solondz dirigiu um filme espetacular chamado "Felicidade" (Happiness). Completamente ignorado pelo Oscar (como geralmente ocorre com filmes controversos e difíceis de assistir), recebendo apenas uma mísera indicação ao Globo de Ouro (Melhor Roteiro), que ele perdeu para o superestimado "Shakespeare Apaixonado" (filme que levou sem merecimento algum Oscars que eram por direito de filmes com "O Resgate do Soldado Ryan" e "Requiem Para um Sonho"). Esse "Felicidade" merecia muito mais, já que se trata de um filme genial.
Contanto com um elenco extremamente talentoso, o filme tem um formato que eu particularmente gosto muito. Aquele em que existem vários personagens, com histórias entrelaçadas, e nenhum deles coadjuvante (formato em que Paul Thomas Anderson se especializou, com "Boogie Nights" e "Magnólia"). Centrada em torno de uma família, composta por um casal de idosos e três filhas, a história se desenrola na medida em que se estendem as teias de relacionamentos de cada uma dessas filhas. Uma delas é solteira, constantamente rejeitada, que busca encontrar um parceiro; a outra é casada com um psiquiatra e possui três filhos pequenos; e a terceira é uma escritora desejada sexualmente por vários homens. Com esta base, as histórias passam a se estender. Um dos pacientes do psiquiatra (Philip Seymour Hoffman, SENSACIONAL) tem uma doentia fascinação pela terceira irmã. Ao mesmo ele possui uma estranha vizinha, que parece sempre querer informá-lo de tudo que acontece no prédio. O já mencionado psiquiatra, embora inicialmente se mostre como um homem calmo e sensato, aos poucos passa a revelar sua natureza sombria (que eu não irei revelar, mas acreditem, é pertubador). A primeira irmã, a rejeitada, decide largar o emprego e passar a trabalhar como voluntária para ajudar estrangeiros como professora, que é quando ela se apaixona por um de seus alunos.
Nesta trama, todos buscam a felicidade de uma forma distorcida e sombria, e eventualmente acabam encontrando-a, embora jamais seja o bastante. E se esta história tem um enorme potencial para se tornar um filme extremamente denso, melancólico e pesado, aí está a genialidade de Todd Solondz. Tudo é apresentado de forma irônica e bem-humorada, o que é algo que aparentava ser inimaginável, dada a complexidade dos temas. Mas o filme de forma alguma suaviza a polêmica. É como se ele constantemente chocasse o espectador, e ao mesmo tempo, risse disso o tempo todo. Uma prova disso é a última cena protagonizada pelo psiquiatra e seu filho, composta apenas por diálogo, mas extremamente difícil de assistir.
O diálogo por sinal, é genial em todos os momentos. Nada soa gratuito, nada está ali apenas para chocar. Tudo é orgânico e parte importante da trama. E merece aplausos por cria uma situação tão paradoxal, de apresentar temas extremamente polêmicos e pesados de forma tão irônica. O elenco inteiro também está impecável, com destaque a Dylan Baker como o psiquiatra, que pegou um dos papéis mais difíceis que existe e o carregou nos ombros como se não houvesse peso algum.
Eu não conhecia este diretor, e agora vi que ele não dirigiu muitos filmes. Mas agora vou procurar esses filmes por aí. Enquanto isso, eu deixo essa recomendação. Assistam esse "Felicidade", pois é um filmaço. Mas deixo também avisado, trata-se uma de obra extremamente pertubadora.
Abraços!

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